Dedicado a 

Gunnar Natanael Rickli Vargas
e   
Ana Estrella Libertad Rickli Vargas

filhos e ao mesmo tempo irmãos
 de lutas & aspirações

 


 


 
QUE MALUQUICE É ESTA
um pouco do quê, como e porquê 
deste Trajeto

 

Decidi publicar este inventário ao me dar conta de que estava terminando de cometer seis décadas de existência. Juro que não tenho culpa: não tive alternativa - mas é fato: cometi!

Anteriormente, com 24 e pouco - mais ou menos ao mesmo tempo em que nascia meu primeiro filho de carne e osso, o músico Gunnar Vargas -, arrisquei parir-lhe um irmão de papel & letras: um primeiro inventário poético, ao qual chamei Pra Fora - poemas incompletos.

Tal título foi uma espécie de grito de guerra da parte de alguém que, por trás da verbalidade exacerbada, é introvertido quase ao ponto do autismo - e o subtítulo uma declaração de que (1) o volume não continha todos os versos que eu já havia escrito; (2) eu ainda esperava vir a escrever muitos mais e (3) cada texto em si nunca chega a me parecer satisfatoriamente concluído, sempre me parece por completar.

É com essas mesmas ideias que brinco no subtítulo desta nova publicação.

Depois do Pra Fora quase nada tinha sido publicado, da minha escrevinhação poética: só uns poucos trabalhos no Folhetim Língua-Viva (depois Revista; mais informações na última seção), alguns na antologia Limo a Leme Nenhum, com o grupo Encontrovérsia (idem), uma ou outra coisa em publicações não especializadas, tudo nos anos 80 - e mais alguns em suporte virtual desde o fim dos anos 90. Balanço: dos 322 poemas com que esta página nasce, só 73 foram publicados anteriormente (38 em mídia impressa e 35 em mídia virtual, somando 22,7% dos 322).

Não é que eu tenha querido esconder uma produção em cujo valor público não nego que sempre acreditei: é que existe um prazer imenso em escrever, mas prazer nenhum na luta para publicar - e os resultados de tentar fazer a obra circular impressa são geralmente muito decepcionantes. Por isso, bendita internet: nossas publicações deixam de ocupar espaço e de pesar no bolso, ficam à disposição de todos... e vê quem quer.

SOBRE A ORDEM RETROATIVA. As pessoas que lerão esta publicação estão me encontrando como sou hoje, no presente. Se quiserem conhecer minha trajetória, é lógico que comecem deste ponto em direção ao passado, às origens... Para isso, os poemas foram divididos em fases mais ou menos cronológicas (mais ou menos porque há seções por assim dizer paralelas, organizadas por temática, estilo, finalidade, etc.), fases essas numeradas em ordem decrescente. É lógico... mas admito que pode causar um efeito estranho: há p.ex. algumas séries de poemas interconexos em que se vai conhecer primeiro o desfecho, depois como começou - e algumas outras em que se vai encontrar, mais usualmente, o 1 antes do 2 e este antes do 3. Complica? Ora, podemos pensar que deixa a brincadeira mais divertida!

PEDANTISMO OU DIVERSÃO? Outra coisa com que sempre lidei com espírito de curiosidade e diversão foram as diferentes línguas, bem como os diferentes registros de linguagem dentro do próprio conjunto brasilês-português. Tive bem pouco estudo formal de línguas na vida, aprendi mais foi fuçando os livros de escola da geração anterior - inclusive os de latim - , e mais tarde nas bibliotecas públicas, intercambiando descobertas em cartas de 40 páginas com o amigo que hoje assina Zé do Rock e vive como escritor na Alemanha. Transitar de uma língua para outra foi sempre pra nós um ato de molecagem, não de erudição. 

No meio disso, o italiano surge como uma caso particular: foi a primeira língua em que se codificou a teoria musical ocidental, e  continua sendo uma espécie língua internacional de músicos e estudantes de música. Quase tudo que aparece de italiano aqui são jogos com expressões técnicas de música

Por outro lado, incorporei "por osmose" os verbos na  segunda pessoa original da língua portuguesa, inclusive a do plural, que no Brasil de hoje costuma ser desafiadora até para pós-graduados. Incorporei-a nas infinitas leituras da Bíblia que tive que fazer e acompanhar desde muito cedo numa família que era quase uma denominação religiosa em si - e ainda acho esteticamente ricas as possibilidades que o "vós" oferece ao artesão das palavras, apesar de me sentir culpado (sim!) por sua baixa comunicabilidade com os jovens - isso já na época em que eu era um! Me consola pensar que Mao Tse Tung tinha vergonha de gostar de escrever poesia ao estilo clássico chinês, já que propunha uma revolução cultural - mas pelo que sei nunca chegou a abandonar tal vício!

PRESENÇA DE TOM E TEMAS RELIGIOSOS E MÍSTICOS. Este não é o lugar para um tratado filosófico nem teológico, mas... em face de muito do material poético que vocês irão encontrar, preciso deixar claro que mais ou menos desde 2006 defendo sem titubear que um humanismo ético, filosófico e cultural aprofundado é melhor para nós humanos que qualquer tipo de religião. Goethe, talvez o maior gênio nascido alemão, dizia que quem tem ciência e tem arte já tem religião (em sua forma mais elevada) - e eu me atrevo a tentar aperfeiçoar essa ideia: quem tem conhecimento, arte e comunidade (ou fraternidade) já tem tudo de bom que uma religião poderia oferecer.

Por isso tenho certa preocupação com os escritos anteriores a 2006: tenho receio que possam ser usados em apoio a posições religiosas ou alegadamente esotéricas que hoje não defendo (atualmente vejo estas últimas como uma forma complexificada de religião, mas ainda religião). Deixo claro, portanto: mesmo naqueles tempos, quando eu dizia "Deus", "Senhor", "céus", "poderes superiores" e coisas assim, eu me referia a ter como eixo de referência a Equidade (efetiva Justiça), o Amor e a Cooperação - e, em contrapartida, chamava e ainda continuo chamando de "mal" ao contrário da equidade, à iniquidade: o desejo  e/ou ação de dominar a capacidade de decisão e a força de trabalho do(a)  irmã(o) humano(a), sub-humanizando-a(o) como bicho ou máquina para sobre-humanizar-se como um deus. 

Apenas que antes eu imaginava esses princípios como algo externo à humanidade, e o Bem como algo sobre-humano a que devíamos obedecer porque não tínhamos nada de bom de nós mesmos (o que é, em resumo, a doutrina calvinista em meio à qual passei a infância e adolescência). Hoje eu entendo que, pelo contrário, o Bem é uma possibilidade nossa, e nem temos evidência de que exista consistentemente fora da noosfera humana. Somos nós, gente humana, que temos o potencial de tornarmos a existência menos cruel, e não há a quem obedecer nesse sentido senão à nossas próprias consciências unidas ao nosso potencial de amor.

Como disse poética-profeticamente o músico Lenine: "a galáxia está em guerra, paz só existe na Terra, a paz começou aqui..." Ainda não é, mas que ASSIM SEJA! Esse desejo é a motivação por trás de cada linha registrada ao longo deste Trajeto.

Abraços poéticos!

Vitória, 15 de abril de 2017

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Seção 12 : UM TEMPO AINDA SEM NOME

Espírito Santo • Curitiba • São Paulo • Santos & Baixada  - de hoje a 2005


 


 

A NAVE E A TEMPESTADE

 

no aposento precário

em que provisoriamente nos refugiamos

do incêndio que assolou nosso mundo,

  

aos poucos nos chegam falas

lançadas de um alaúde
no espaço, há quinhentos anos,

  

nos tomam nos braços e embalam

- e de repente o quarto é uma nave

que atravessa indiferente a tempestade

  

e no embalo nossas peles se encontram

e pedem socorro uma à outra,

  

negociam centímetro a centímetro

o apoio que damos ao outro

com força sempre crescente...

  

até que somos a nave

e a música, e a própria tempestade,

  

e, quando vemos, está cantando em nós

a Vida,

  

assegurando

que já estava aqui antes de tudo

e que haja o que houver

continuará:

  

avante, avante, marinheiros,

não há força

que possa nos parar!

 


Vitória, 23-24.11.2016

ESTE É O POEMA Nº 322 DESTA PUBLICAÇÃO.

 


 

TEMPOS DE CONTROLE DAS MASSAS

 

controle das massas?

acho ótima ideia!

comprei um espaguete esses dias 

que veio cheio de caruncho!

 

ah, não é isso? já sei:

o senhor fala de moderar

a ingestão de carboidratos!

 

também não?

o senhor diz

MASSAS HUMANAS? que horror! 

quer dizer que o canibalismo

foi liberado e industrializado?!

 

AINDA não?

o senhor diz que quer dizer

AS MULTIDÕES?

que estranho! será possível

que da distância que o senhor olha

as multidões se pareçam com 

MASSAS?

 

que cômico! pois aqui,

dentro das multidões,

elas parecem pessoas... 

pessoas muitas, pessoas juntas, mas

PESSOAS, 

assim com cabeça, 

duas pernas, dois braços,

sentimentos, planos, amores

quase igual ao senhor.

 

por que eu disse QUASE,

o senhor quer saber?

por nada, não - só porque,

além da cabeça, das pernas,

dos braços e sentimentos,

dos planos e amores, igual ao senhor,

as pessoas da multidão

parecem ter um pouquinho mais 

de PERCEPÇÃO...

 


Vitória - Vila Velha, em 31.10.2016. Idealizado atravessando de triciclo a primeira ponte de ligação de Vitória com Vila Velha, conhecida por "Cinco Pontes"

 


 

NATAL 2015

 

Os homens de bens louvam Maria não ter abortado

Ter deixado o moleque nascer mesmo no aperto

Pra então ele crescer e se mostrar inconformado

E aí haver desculpas pra fazer morrer.

 

E é assim que ele só salva porque morto:

já pensaram quantos mais iam morrer

se não fosse esse lembrete em toda parte

do que acontece a quem desafia o poder?

 

A MANJEDOURA E A CRUZ SÃO O MESMO PAU.

 


24-25.12.2015 - com alguma inspiração em Heirich Heine

 



LEMBRETE A UM PAÍS MESTIÇO COMO EU

 

não há  nobreza alguma  na dominação:

honra

o sangue “derrotado” que há em ti.

  

é ele quem merece.

 


25.10.2012

 


 

QUALQUER RUMO EM QUE EU PEDALE

 

Qualquer rumo em que eu pedale

o vento sempre vira contra.

Não faz mal (penso comigo),

vou morrer de pernas fortes.

Mas... pensando ainda melhor:

pra que perna após a morte?

 

Então por favor não me venha

com elogios à labuta:

pernas e coração

fortalecidos em luta

merecem companhia melhor

que a dos vermes, seu f.... .. .... !

 


Vitória, '"Praça do Papa", 24.02.2012

 


 

DOUTOR GRAMATICULINO, SUA ESPOSA... E ESTE QUE VOS FALA

 

não é querendo lhe ofender,

Dr. Gramaticulino Normoso,

mas essa senhora,

que lhe acompanha em terninhos discretos

nas cerimônias soníferas

a que o senhor a arrasta com suas gravatas francesas...

 

... essa senhora, da qual nunca extrais

mais que uns inexpressivos aiais,

eu bem que conheço ela

um tantinho outra,

nas madrugadas.

 

Sim, pois quando a gente se tromba

pelos butecos e becos, e se encoxa

no elevador pras estrelas

de um quartinho apertado...

ah, como ela se contorce

sob os meus dedos, minha língua,

que num minuto inventam dez regras

para abolir no instante seguinte

trocadas por outras dez

– tampouco feitas pra durar

mais que até a próxima explosão

de prazer

 

E como uiva delícias,

sua senhora Dona Língua Portuguesa

nessas noites em que nos entredevoramos

com tesão

– e amor!

Ah, eu confesso:

até tenho dó

do senhor, que nem desconfia

do que essa mulher é capaz!

 

Coitado... se soubesse mexer as cadeiras

para além desse um-dois, um-dois

que o pau do jesuíta 

e o do general

lhe ensinaram...

Mas faz cem anos que o convidam pra folia,

e o senhor, nada de relaxar!

 

Pois fique, então, com a sua pose...

mas alforrie essa eXposa gostosa

– que ao seu lado ela já nem pousa

mas na minha boca

ela goza.

 


Idealizado em São Paulo em 1996. Escrito em Curitiba em 18.05.2011.
Revisto em Vitória em 05.11.2015, nono "Dia Nacional da Língua Portuguesa"

 


 

CURITIBA BY NIGHT REVISITADA

 

tanto tempo, tão outra te tornaste e

tão a mesma, charmórbida curitiba!

mostrem-me um homem

que não seja desengonçado

e eu lhes mostrarei que é de fora...

                                      mas após

certo teor e certa hora

todos os pardos são gatos

mesmo se todos, ou quase todos

(e os vermelhos, amarelos, os rosados,

os azuis)

ao mesmo tempo cães - e como haver-se

em meio a tanta vida

animal?

 

despierta, mi bien, despierta,

mira que ya amaneció,

desgruda-te dessa mesa

e  vamos pra casa dormir!

 


05-09.01.2011

 


 

O DESTINO NA VIRADA DA PEIXEIRA

 

de sol

a sol

o menino

não vê o sol

 

como se fosse

o natural

o velho perpetua os ritos

do escravizar

 

o universo

arma:

dez centavos

um chiclete

um sussurro

– ainda sabes?

ainda sabes quem és?

 

o velho

rosna

– se dobra!

o velho

ruge

– se dobra!

a mão

se levanta

– se dobra!

recai

na garganta

– se dobra!

o universo

em alarme
grita

– ainda sabes?

ainda sabes quem és?

 

no braço

o músculo escuta

arranca

do velho a faca

levanta-a...

– AINDA SABES QUEM ÉS?

 

no velho
pescoço
a faca incide

de costas.

penetra

na carne

somente a lição.

 

em silêncio

o universo

ressoa

– ainda sabe...

ainda sabe...
ainda sabe

quem é...

– o caminho

está aberto...

o caminho

ainda é seu...

           é seu...

           és Eu!

 


Baseado num relato do amigo V.S.S., da Bahia, a quem se dedica.

Concebido e esboçado durante um concerto da Camerata Antiqua de Curitiba na Capela Santa Maria, em 21.08.2010. Última revisão em Vitória, 23.12.2015.


 

THE DEPRESSION BLUES

 

minta pra mim, se for preciso

sim, pode fingir que me gosta

mas não me deixe sem uma palavra

dia sim dia não, pelo menos

que me dê a impressão que no mundo

pra alguém ainda faço diferença

- I mean: pessoal, Babe,

oh yeah,

diferença pessoal

 

minta pra mim, se for preciso

pra não faltar força no braço

e eu não largar essa corda

até estar seguro na margem.

e você, então de perto, quem sabe

descubra que de fato me gosta

- I mean, pessoalmente, Babe,

oh yeah,

de um modo pessoal

 

se conseguir me arrancar da voragem

e firmar meus pés nessa margem

é bom que volte a verdade:

mesmo se me deixar

você ao mentir terá dado

amor de verdade, Babe,

oh yeah,

amor de verdade

 

e aí, depois disso tudo

quem sabe, Babe,

quem sabe?

quem sabe, você...

até babe!

 


São Paulo  02-12.08.2010

 


 

ninguém sabe por onde tenho andado.

o mundo já não interessa a ninguém.

 

cada nuvem de mosquitos com sua própria delícia...

se algures há flit, e daí?

 

no entanto não labuto em desespero

esperança tem mais força que razão

 


São Paulo  dez. 2009


 

USP REVISITADA

 

oh lugar

insípido e inodoro

insulso e insensível

celebração tediosíssima

da imensa importância do nada

(o nada disfarçado de existente

à custa de cobrir-se

com mil títulos...)

 

oh lugar sem alma sem alma

e sem alma

túmulo aberto e sem nem mortos

que alguma graça lhe emprestem,

oh suprema pista falsa

do que fosse alguma realização do espírito

na terra brasilis -

 

que feliz,

que feliz me vejo agora

de me ver, de te ver,

e me ver fora!

 


06.08.2008, com ajustes até 2015


 

SOMOS TODOS ÍNDIOS

 

Índios!...

 

Índios?...

 

Sim, índios!...

 

Somos todos!...

 

Todos índios!...

 

SOMOS TODOS ÍNDIOS!

 

 

Somos todos índios:

você diz que não,

mas tá na cara,

tá na pele, tá nas formas,

tá no olho da titia, no cabelo da vovó,

no meu olho, seu nariz...

 

Somos todos índios!

Tá no apelo da cachoeira,

da vida pra fora das portas,

na partilha com os amigos

no desprezo por quem acumula -

tá na generosidade

que nem pensa no amanhã

- guardar? pra quê?

guardar pra quê,

se afinal É TUDO NOSSO?

 

Somos todos índios:

feitos do pó vermelho desta terra,

águas destes rios nas nossas veias,

fibra destas matas nestas fibras

o jeito manso da capivara

escondendo coração indomável

de onça -

 

Somos todos índios:

está na vitória secreta

da alma que finge obediência

mas que por dentro ri

e continua, indomada,

fiel a si...

 

Somos TODOS índios:

índios de América e índios de África,

índios da Ásia, das ilhas, das matas do mundo

- até índios da Europa

até eles, pisados por 3 mil anos

de uma colonização esquecida...

 

SOMOS TODOS ÍNDIOS!

SOMOS TODOS ÍNDIOS!

 

E VOCÊ, BORBA GATO,

você que no dia-a-dia

também falava tupi ...

mas chamou moços de Portugal

pra casar co'as suas filhas

- você e sua raça

foi quem quis nos fazer esquecer!

 

SOMOS TODOS ÍNDIOS!

SOMOS TODOS ÍNDIOS!

 

Raça de Borba Gato,

traidora da sua própria indianidade,

seu progresso

não é

o que escolhemos

seu bom-senso nos parece loucura

seu bem-estar nos parece tortura,

suas boas intenções, maldade,

seus bons modos, falsidade,

sua justiça, violência pura...

 

(SOMOS TODOS ÍNDIOS!)

 

Raça de Borba Gato,

traidora da sua própria indianidade,

não, não tamos aqui pra sustentar seu lindo almoço

que custa o mesmo que dois meses

do trabalho de um dos nossos -

enquanto comentam a incompetência do governo

em reduzir as injustiças nacionais...

 

(SOMOS TODOS ÍNDIOS!)

 

Raça de Borba Gato,

traidora de sua própria indianidade,

que fez do Anhembi rio de veneno,

do Jurubatuba uma cloaca,

do ar puro de Piratininga

uma meleca de cortar com faca

 

Raça de Borba Gato,

traidora de sua própria indianidade,

vocês

já gastaram suas chances -

agora tá na hora

de também jogarem fora

o mito idiota

de que nasceram pra mandar

 

- eu não sou conduzido, diz você:

muito bem,

muito bem, nós também não!

 

mas aí me diz também - eu que conduzo!

ah, é, meu bem? conduz a quem?

só se for (como gostam tanto de dizer

em Portugal)

só se for

a puta que o pariu

(com perdão das companheiras

que se viram na labuta sexual).

 

Raça de Borba Gato,

traidora da sua própria indianidade

- tá na hora de parar

de querer bancar cacique

quando ninguém te elegeu

 

tá na hora de assumir

que é mais um índio

que nem os outros,

 

e de pegar trabalho

que nem os outros,

 

arroz, feijão e macaxeira

que nem os outros,

 

de conduzir

só a si mesmo - e olha lá:

na maior atenção aos outros

pra não trombar.

 

Manuel de Borba Gato, mameluco renegado,

escuta a voz de todo mundo:

tá na hora de largar esse trabuco,

e dividir o mando

com todo mundo!

 

Manuel de Borba Gato, mameluco renegado:

rabo entre as pernas, bandeirante!

- pois chegou a hora de você

assumir...

 

ou SUMIR!

 

SOMOS TODOS ÍNDIOS

SOMOS TODOS ÍNDIOS

SOMOS TODOS ÍNDIOS

SOMOS TODOS ÍNDIOS

...

 


Um texto original apresentado no evento

Julgamento Popular de Borba Gato

em Santo Amaro, São Paulo, em 19.04.2008

   


VOCÊ TROCOU O NOSSO AMOR POR UM AUMENTO

  

pois é, amor, eu sei

é o aluguel, é a mãe, o irmão doente,

é a prestação, é o pão, é sei lá o quê

eu sei que quem trabalha

vive sempre no tormento

mas assim já é demais:

você trocou o nosso amor

         por um aumento

 

pois é, amor, eu sei

você tentou, quem não deixou foi o gerente

de repente tão bonzinho com você

e eu te esperando sempre

paciente feito um jumento -

mas agora, meu bem, foi demais:

você trocou

         o nosso amor por um aumento

 


PENSADO COMO UM SAMBA. 29.02.2008


  

Não me venha com esse papo de me ensinar a pescar.

Essa não é minha profissão e não pretendo que um dia venha a ser.

Ademais, não estou pedindo que você me doe esse peixe,

estou pedindo apenas que me entregue alguns do que pescou

em troca das redes que fiz, das varas que preparei,

das trilhas que abri no mato até o rio

para você pescar

 


Maio 2005


 

te quero companheiro de aventuras!

mas se te pretendes

resposta final e suficiente
a todos os anseios meus –
que aventura restaria no universo a perseguir?


ver novos lugares, novas tardes, novos grãos de areia?

mas que podem eles, quando cada humano,

cada um,
é em si um universo inteiro?
cada um com seus pássaros, seus grãos de areia,
seus pores de sol?

 

te quero um companheiro investigador de universos! e depois –
depois, cansados e ricos do que vimos e provamos,
cada um na sua expedição,
cairmos rindo nos braços um do outro
e em puro gozo
compartilhar o mais que nos tornamos

(... tanto enquanto dois
como enquanto o um que também somos)

 

vai, vai para o mundo, meu amor, e vive mais!                       
mas volta! pra que eu também possa viver mais
em ti,

e em mim,
e em-ti-em-mim-e-em-mim-em-ti!

 

vai, vai, meu amor!

e vem!

 


Santos 15.01.2007

 


 

Bom dia, Coisa!

Pensa que eu não sei

que você me espia?

Que você também

quer falar comigo

enquanto eu olho aqui

para o meu umbigo?

 

Bom dia, Coisa! Parece

que só resta você!

Humanos já mal se olham,

sempre têm o que fazer! -

e os bichos - tão meus iguais! -

seguido me cansam

de tão animais!

 

Bom dia, Coisa, bom dia...

mas fique aí no lugar!

Cada dia mais viva, mais móvel...

pra mim, o que vai restar?

 


Praia Grande SP 2005


 

MANTRAM: A CHAVE DE TUDO

 

que toda Sabedoria 

se entregue ao Amor

e ao Amor Sábio se entregue

todo Poder

 


Santos 2007


 

Tempos de absoluta depuração - IV
DEUS ME MANDOU TENTAR VIVER SEM DEUS

 

Deus me mandou tentar viver sem Deus.

Sem nada do que nos acostumamos a pensar como sendo Deus,

e como sendo o que Deus pede de nós.

 

Ele me disse:

se Eu existo, e Sou o que Eu Sou,

Eu estarei em você sem você se preocupar com isso.

Apenas viva buscando ser bom

porque é bom

e não porque isso tenha o carimbo “de Deus”

 

e não fique tentando me abranger com a sua consciência

pois isso seria garantia de que você terminaria guiado

por uma imagem menor de mim

que não é o que Eu Sou.

 

Se você me ama mesmo

apenas me deixe estar em você

como a água está no peixe

(em volta, e dentro, e dentro, e em volta)

e esqueça os nomes que me dão.

Ocupe-se em ser quem você é

enfrentando as situações que estiverem diante de você

sem delirar que o rio secaria

se você não dissesse o tempo todo

                                           “ó Água, ó Água, ó Água!”

 

Se você me ama mesmo,

veja se CALA meu nome

e os discursos sobre minha existência e importância -

pois não há nada mais insuportável

que um bando de peixes que não param de falar.

 


Título da série inspirado em Carlos Drummond de Andrade, Os ombros suportam o mundo.

Santos 02.06.2007 rev. 2008

   


Tempos de absoluta depuração - III
DE VOLTA

 

vinde, vinde comigo

que eu vos darei

desamparo

 

podereis ver onde o sol nasce

por vós mesmos

porque eu não vos estarei discursando

quando o sol nascer

 

que vos ofereço?

perda:

nada restará da segurança

que os painéis pintados vos concedem

 

compartilho generosamente convosco

o horizonte limpo

 

mas se quiserdes

um pouco

descansar

os olhos

tenho comigo enxadas

 

no chão seco há sementes

e ao nosso suor

podemos ajuntar uns pingos

aqui do Nilo

 


Título da série inspirado em Carlos Drummond de Andrade, Os ombros suportam o mundo.

Santos 18.09.2006

   


Tempos de absoluta depuração - II
GRÃO CAVALEIRO DA SAGRADA ORDEM DOS DESORDENADOS

 

Grão Cavaleiro da Sagrada Ordem

dos Desordenados

em cidades muradas meu coração não se encaixa

e chácaras cercadas não dão campo a seu galope

ébrio de se escancarar

pra ver as coisas como são.

 

Rebelde? Bobagem!

Rebelde se é frente a um padrão

– e quem diz

que é padrão ser prisioneiro?

Rebeldes são aqueles que atentarem

contra o padrão maior,

que é ser Si Mesmo o seu padrão!

 

Bárbaro,

a esses castigarei brutalmente:

lançarei seus arreios na fogueira

condenando-os a chocante liberdade

sem rótulos nas rotas nem roteiros nas mãos.

 

Vinde,

vinde tentar me tosquiar,

e saireis aturdidos

com vossas próprias lãs!

 


Título da série inspirado em Carlos Drummond de Andrade, Os ombros suportam o mundo.

Praia Grande SP 03.06.2006

   


Tempos de absoluta depuração - I
PARECE QUE ESTÁ TUDO PODRE E QUERO DIZER “DESISTO”

 

Parece que está tudo podre e quero dizer “desisto”.

 

Culpa de ninguém, só do tempo.

 

Melhor deixar tudo e começar do zero?

 

Mas quem enterrará o decomposto,

porá fogo no seco?

Seguirei por aí

mais um construtor de ruínas?

 

E quanto a recomeçar... sem escudeiro ou par

é perda de tempo pegar na espada

(ou esquadro, martelo, enxada).

Quê resta?

 

Se encolher no meio

da ruína em formação

esperando a graça

do desabamento ou incêndio em breve?

 

(Ou algum galope

desses que escuto ao longe

virá no rumo daqui

que não pra passar ao largo?)

 

(Como se eu não soubesse

que não restou cavaleiro

que não se chame Godot!)

 

(Ou valerá apostar

que de tudo mesmo resta um pouco,

até do bem?)

 


Título da série inspirado em Carlos Drummond de Andrade, Os ombros suportam o mundo.

Praia Grande SP 31.03.2006


 

HIC HOC

 

Eu não peço

que manipulem o destino,

eu peço apenas

boa-vontade geral

no mundo da terra e do astral

pra tudo se ajeitar com mais beleza.

 

A quem interessa o caos?

Somente aos carrapatos.

E se a minha mente não alcança

o porquê da sua existência

nem por isso o comichão

me permite paciência

e é por isso que eu olho o infinito

e grito:

clemência!

 

E sem esperar que retorne o eco

do centro, do fundo ou quem sabe

do fim do fim do infinito

de novo e de novo eu grito

ao infinito infinitamente

eu grito

 

até que o infinito quem sabe

se preencha de clemência

- se dele, se nossa, nem conta,

o que conta

é que acabe a sobrevivência

- que acabe a sobrevivência

e comece enfim

- enfim e por primeira vez -

que comece

a VIDA

 


Praia Grande SP 01.03.2005 

Um experimento em pequena escala, possivelmente a expandir

O título é trocadilho com palavra latinas para 'isto, aqui' e 'por causa disso'.


ENTREATO BRINCANTE 12-11
Vitória • Curitiba • São Paulo - de hoje a 2008


 

 


 

DECLARAÇÃO DE PRECIPÍCIOS

 

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09.04.2012

Uma brincadeira com a palavra "princípios", caso seja necessário explicar

 

 

DA FECUNDIDADE DO ANDAR POR AÍ

 

senhores, senhoras, concedam
que o meu andar seja fecundo:
entendam que eu mais trabalho
quanto mais sou vagabundo

 

 

MORRO SÃO JOSÉ, 2012

 

que tempos!

a cada manga que cai

no telhado vizinho

um sobressalto:

 

mais um corpo no morro?

 

Tranformação do final original de O verdadeiro sabor da cidade (Curitiba 1985; seção 8) operada em Vitória, 2016-17

Vitória, 05.11.2012

 

ACADEM(BAH)IA
(namorando a bahia I)

 

conhecimento & ginga

reflexão & tesão

para que casamento

mais feliz?

 

 

NAMORANDO A BAHIA II

 

ainda hei de dar aos meus ossos

a alegria

de poderem envelhecer alegremente

na Bahia

 

I - 24.09.2008, contraponto a 'USP revisitada'. Retomado em 2010, quando passei 40 dias em Salvador tentando um projeto na UFBA.

II - Curitiba 05.11.2011, antes do concurso que me trouxe ao ES

 

PARFUMS DE TERRE

 

¡ véte, hiver !

¡ vou te ver !

afundar

-me em capins

de cheiro agreste

 

 

vou

e volto

vou

e volto

revoo ?

revolto ?

 

Setembro 2010, viagem à BA marcada.

1º verso: 
"vai-te, inverno", juntando espanhol e francês, com a exclamação ¡ no início, do espanhol. Jogo com o nome do capim e perfume vetiver

 

MARCHINHA DE CARNAVAL

 

A televisão matou a janela?

Pra... mim não!

Pra... mim não!

Pela janela eu continuo olhando,
e a tevê

faz trinta anos que eu não olho nela!

 

 

Que o dia em que eu for embora

que algo reste de mim e

(sem sofrer embora!)

assombre para sempre a vossa burrice

e só deixe em paz

quem se dispuser a despertar.

 

SP 12.08.2010. 1º verso: título de artigo de Regina Arnab.

Início de 2009.

 

neste mundo

me interessei por tudo o que é lixo

neste mundo

por tudo o que

neste mundo

é tido por marginal ou baixo

neste mundo

não tenho tido lá muito sucesso

neste mundo

não consigo ver importância

neste mundo

em nada do que levam mais a sério

neste mundo

 

 

precisamos de Deus? ou

precisamos de Eus?

 

 

2009

05.08.2008

 

 

TABACARIA VERSÃO RALF

 

NÃO SOU NADA. Nunca fui nada.

Parece que é lei

que eu não possa querer ser nada.

Mas... à parte isso,

tenho em mim todos os sonhos do mundo...

 

 

Desculpem, mas o que eu direi é

fodam-se

 

2008, 
janeiro e abril.

Tabacaria: óbvia variação do início do poema homônimo de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


Seção 11 : CONSTELAÇÕES QUE GIRAM NO ESPAÇO
Baixada Santista • São Paulo - 2007 > 1987
mesma época da Seção 10, com ângulo diferente


 


 

 

 

Quando nós nos apoiamos
um no outro, Senhor Rei,
tu, no jovem, eu, no velho,
nós somos constelações
que giram, giram no espaço...

Rainer Maria Rilke

 


De Davi cantando diante de Saul recriado por Leopoldo Scherner

Nos tempos atuais é bom deixar claro que nesta seção a palavra 'menino' se refere sempre a jovem na entrada da maioridade, o que os gregos chamam "ephebo", que significa precisamente "acima de adolescente".


 

amar é viver fora da realidade

amar é se iludir

de que se pode viver de ilusão

amar é deixar

que subam na sua cabeça

amar é se deixar fazer de idiota

amar é me engana que eu gosto

amar é ser burro

 

bem-aventurados os burros

porque deles é o reino do amor!

 

 


Praia Grande SP 24.08.2005

 


 

pedaço

de minha alma

quando te reverei?

por que te puseram longe -

tão longe quanto nem sei?

cavalos ao léu

labirintos no céu

de casa qual é o caminho

se em todo ponto me vejo sozinho?

 

pedaço

da minha alma

onde te encontrarei?

se a noite não tem luzeiro

e no céu não acho o cruzeiro

como procurarei?

 

pedaço

da minha carne

quando te abraçarei?

desfaça-se o véu

- sem causa sou réu! -

te possa, me possas ver

- mas como reconhecer

tua face entre as faces todas

         das estrelas?

 


Praia Grande SP 25.02.2005
Sétima revisão: 2017

Pode-se ver como retomada do tema da Cantiga d'Amigo da Seção 2 , de 1978

 

 


 

espelho, espelho meu!

acaso existe alguém

mais amoroso do que eu?

vem, toca minha testa

amassa minha boca

prossegue pelo peito

como eu - espelho,

espelho meu:

                  acaso existe alguém

                  mais desejoso do que eu?

avança com o joelho,

pressiona com o ventre

faz força no meu sexo

com o teu!  Ah . . . . .

espelho, espelho meu!

acaso existe alguém

que tem mais gozo

do que eu?

 


SP 19.07.2001

Última revisão Vitória 02.07.2014

Expansão ainda em projeto


 

eu confesso:

 

em migalhas que caem

da boca de quem eu amo

encontro mais prazer que em banquetes

nas mesas dos que só estimo

 


Jun.-jul. 1998
rev. 2017


 

o calor do meu amigo me consola

como sol

que me dá ânimo ao corpo

e vontade de viver

 

a chuva do meu amigo me abençoa

e fecunda minha alma

gerando em mim

o desejo de criar

 


07.07.1998
rev. 2017

 


 

EXERCÍCIO DE MATEMÁTICA:
substitua adequadamente o “x”

 

todos os vultos

que vejo e caminham

na noite

se chamam

“X”

tudo o que espia

me olha e

nem sabe

se chama

“X”

tudo o que rosna,

resmunga, despreza-

me empata

mas fica

se chama

“X”

tudo o que inspira,

liberta, refresca

e nem liga

se chama

“X”

quase tudo o que espero

e virá mas não sei

com que nome

se chama

“X”

ah,

com que nome virás

com que cara virás

com que corpo, que alma,

palavras e planos

e mãos e lombos e flancos

e partes e pés

e artes e dores e deuses e graças ?

não sei o teu nome, ó vindouro,

porém pelo menos

em parte daquilo

que és, que vais ser,

em boa parte, em enorme

em imensa, em gigan-, gigan-

tíssima parte

te chamas

“X”!

 


14.05.1998


ah coração,

por que calaste?

por que te endureceste, se ainda há pouco

derramavas-te em doçura?

ah coração,

não temas

que te amarem te escravize

– pois nunca serás livre, coração,

mais

que quando amado

e nunca serás inteiro

senão quando fores metade.

semeia-te, coração:

sê meu!

sê meio

e serás inteiro

teu

.

 


26.03.1998


 

Quanto mais me calo, mais

te amo

estou dizendo –

e mais desejo

tua ilusória entrega:

sem entrega

e no entanto assim entregue,

intensa,

e, sem paixão embora,

apaixonada mais

que a de apaixonados tantos.

não, não te chamarei,

pois, se importuno,

não seria amor condigno.

então me calarei,

e assim calando

é que te chamo –

pois quanto mais me calo

mais te amo.

 


Dez. 1997


 

oh mendigo, eu,

de teu amor

me tenho feito,

e sem querer saber

se indigno,

ao teu lado me vejo

feito um cão

a espera do desejo

que um dia te brote

ou dos farelos que acaso

caiam da mesa tua – oh

mendigo,

eu,

oh mendigo,

eu,

ho men

digo

eu

!

 


25.08.1997


 

quanto mais te conheço
menos te sei:
mais e mais te me tornas
um quase eu:
um universo
em que estou dentro demais
pra que pudesse entender

 


23.07.1997 - 28.03. 1998

 


 

beijo a flor dos teus lábios

como beijo a flor de tua bunda,

formas todas

da maior nobreza

como também os arcos

das catedrais dos teus pés

e o talo que sobe, robusto,

em busca do meu calor

 


22.03.1997

 


 

¿ouviste, ¡ai coração!,

ouviste o portão gemer?

¿até quando viverás na penumbra

da presença apenas incerta

da luz do rosto que amas?

 


03.03.1997

 


 

entre as begônias

e as agonias

tu já não sonhas

como soías.

eram vergonhas

as alegrias?

eram medonhas

ou covardias?

davam insônias,

pneumonias?

não, não me imponhas

melancolias

nem enfadonhas

monotonias

noites tristonhas

horas tão frias...

entre as begônias

e as agonias,

vê se me sonhas

mais harmonias!

 


03.03.1997

 


   

ah como eu te agradeço, amigo,

por ter feito em mim reviver

a poesia!

 

ouve, menino, a poesia

que na tua carne se oculta –

ouve-a e nunca duvides

de sua sagrada nobreza.

deixa falar, menino,

a música do teu corpo!

canta, sim, canta a música

da alma, da mente, do espírito –

mas não cales a sinfonia

que no desvão das tuas fibras

ansiosa-gloriosa aguarda.

(ouve, menino,

e vem!)

 


25.09.1996

29.09.1996

 


 

meu coração não ’stá em mim. como posso

estar em paz?

corações sacerdotes um dia

arrancavam e ofereciam

ao sol.                    eu, aqui,

pareço ter-me arrancado o próprio

pra colocá-lo diante

de um menino solar.

não está certo, eu sei, mas

que fazer?,

se é seu brilho o que tem espantado

o frio que me trava os ossos?

e no entanto estou doente,

trêmulo, e ossos

ainda mais travados,

pois meu próprio sol não está em mim

– enamorado de outro sol!

ah, como então hei de aquecer

aos tantos

que confiaram em mim?

haverá como retomar meu coração

sem que se vá aquele sol

que lhe tem feito companhia?

 


21.09.1996

 


 

Todo mundo tem um quintal. É o quintal da infância.

Mais cedo ou mais tarde ele reaparece.

Manoel de Barros, Livro Sobre Nada 

 

quero te encontrar

no quintal da tua infância.

quero a terra úmida e alguma laranjeira

se inclinando gentil sobre nós

ao tomar no colo o menininho desconfiado,

a cabecinha observadora

o coração hesitante...

queria fazer com que risse

e de repente confiasse

e soltasse o corpo

no meu peito, meu abraço...

e que de repente fosse hoje

e ele grande, e ele belo,

homem inteiro

e menino sempre,

soubesse poder estar ali

e aceitar

ser amado

 


21.08.1996

 


 

falaste de um vinho suave.

                                    vem

e prova a suavidade

de minhas mãos, de meus lábios,

meu abraço –

                                    vem

e diz-me depois

se é preciso vinho

para uma embriaguez

feliz.

 


03.09.1996


 

e se tuas mãos me deslizassem peito abaixo

enquanto me levanto

e me ancorassem

a ti

– gêmeas colunas,

mistérios gêmeos –

então de mim se estenderiam

asas de infinito

e ao, das alturas, contemplar teu peito aberto

em mergulho de águia eu te romperia

o invólucro

e dentro em teu coração explodiria

repousado

enfim

em ti

em mim

.

 

sustenta-me, ah!

sustenta meu vôo

e eu te farei

voar

.

 


1995


 

DE DESERTOS E OÁSIS

 

I

 

por quanto tempo ainda

vagar no deserto?

oásis, tão breves,

já nem consolam.

a sede se entranhou nas minhas fibras

e me seca a vontade do passo.

nem uma noite mais

dormir na areia

sem a certeza

do verde em frente.

 

vales

ó vales férteis

para prover a um homem

a noite, o dia,  a vida!

sei que existis! por que

de meu caminho escapais?

nem uma noite mais

dormir na areia

sem a certeza

do jorro das fontes pra sempre.

 

 

II

 

oásis, não,

mas vale verdejante

 

cacimba, não,

mas rio inesgotável

 

não uma noite

mas vida adentro

 

te  quero

te espero

 

sim

 

!

 


São Paulo 13.01.1992

 


 

MAIS PRA BOLERO QUE HAIKAI

 

espero sim que venhas

que me atendas

que me entendas

que não rias de meus versos

andarem mais pra bolero

que pra hai-kai

(como escrever enxuto

se o sentimento transborda?)

 

não rias.

não, ri sim.

ri, e faze-me rir.

não te importes

se a alguém pareça ridículo.

se é ridículo ser feliz,

então sofreremos, de estetas?

 


Botucatu SP 22.04.1987


 

se tivesse que escolher

entre ser poeta

movido a solidão

ou ser feliz

movido a companhia...

perdão, velha amiga,

mas abriria mão de ti,

poesia.

se tivesse que escolher

- ou se pudesse.

 


Botucatu SP 1987-89


 

khayam me diz: "respeito o amante

que geme de felicidade;

detesto o hipócrita que murmura orações."

gemidos,

gemidos de amante!

acaso não murmuramos por eles

nas orações mais sinceras?

 


Botucatu SP 1987-89

 


 

qual foi o tremor da tua voz

ao dizer "te amo"?

foi de quem ao dizer percebeu

que acabava de mentir?

foi da pressão da emoção

rachando a embalagem verbal?

ou tua voz não tremeu, e, frio,

nem amas nem desamas?

 


Botucatu SP 1987-89

 


ENTREATO BRINCANTE 11-10
Baixada Santista • São Paulo - 2006 > 1995


 

 


 

COMO QUEM NÃO QUER NADA
VARIAÇÕES I

  

como quem não quer nada

quem não quer nada

não quer nada

quer nada

nada

e

nada

quer nada

não quer nada

quem não quer nada

como quem não quer nada

  


Santos 19.12.2006


 

COMO QUEM NÃO QUER NADA
VARIAÇÕES II e III

 

como quem não quer nada

quem não quer nada

não quer nada

quer nada

nada

e

nada

quer nada

não quer nada

quem não quer nada

como quem não quer nada

  


 

 
 

 

como quem não quer nada

quem não quer nada

não quer nada

quer nada

nada

e

nada

quer nada

não quer nada

quem não quer nada

como quem não quer nada

  

 

 

neste berçário em que mais uma vez

                                 sozinho nasço

tenho sede de beleza e de emoção

 

mais um cachorro vai embora

e me faz chorar de saudade

de um gato

Santos 27.10.2007
(das tais 'novas fases de vida'...)

22.11.2007

 

este mundo é mesmo um paraíso!

para as moscas.

 

 

VENTOS DA LIBERDADE

 

cabelos do oriente

fustigaram meu rosto

ao passar do trem

 

I - 07.05.2006

II - 2006. Para quem conhece São Paulo...

 

e as palavras que apaguei

e não vou lembrar

­ ainda existirão

em algum lugar?

 

 

a natureza é bela

mas por demais cruel

às vezes me sinto um urso

que nunca mais comeu mel...

 

Praia Grande SP
19.11.2005

18.11.2006

 

um povo antigo qualquer

passou por mim

e garantiu que, não,

não haverá começo antes do fim

 

não que seja o fim
que a galera estima

mas fique aí sim

pela rima

 

 

IMPESSOA, ou 
A VIRTUDE DA BUROCRACIA

 

lá onde a alma é pequena

vida não vale nada

direitos se tornam pena

 

Praia Grande SP
03.10..2005
24.08.2005

   

também havia jovens naquele tempo:

eu era um deles.

 

 

ao cair na xícara o café cantou! –

e cantou uma cantiga de faroeste.

será meu deus, que é o meu amor

me chamando lá do interior?

 

Praia Grande SP
13.06.2005
15.06.2005

 

– olhe, que coisa mais linda!

– o quê? não estou vendo nada.

– ali, ali, no canteiro!

– ah, é apenas o sol poente

batendo de lado nas folhas...

– apenas? mas é um hino de glória!

você por acaso

é surdo dos olhos?

 

 

CRENTE DE TERNO

 

que aquele homem descalço

tenha morrido na cruz

pra te pôr no pescoço essa forca...

– nisso eu não posso crer!

 

Praia Grande SP 12.06.2005
Mar. 2005

 

ai minhas finânsias!

 

 

por que quando eu grito “Amor!”

me responde sempre o Silêncio?

 

26.07.2002
Maio 2005

 

EMOÇÕES PTOLOMAICAS

 

círculos dentro de círculos,

esferas dentro de esferas.

o universo é uma grande cebola.

por isso me faz chorar.

 

 

AH, ESSES CONCRETISMOS...

 

pode vir

de mala e cuia

de mala e cui

de mala e cu

 

26.07.2002

07.03.1997

 

AULAS DE INCONFORMÁTICA

 

 

in

   te

      lec

           tu

              alma

 

1996-97

10.02.1997
('intelec' pode ser entendido como 'entende', e 'tu' como 'tua')

 

 

e a partir do século XV

o mundo foi sendo dominado 

por europeidos

 

 

DOS ERROS QUE ACERTAM

ainda resta a espernaça!

26.07.2002
(se não está claro pra alguém: referência aos canhões)

07.03.1997

 

 

essa coisa faltando

será no estômago,

será na alma?

 

 

somos uns coitados.

não somos quaisquer coitados.

somos uns coitados gloriosos...

 

22.08.1996

Abr. 1996

 

 

DAS RUAS DE SAMPA

 

com chuva não

com sol, ação

 

   

meu deus, que eu não seja 

pedaço de bosta boiando no rio,

empestando-o ainda mais...

faz de mim um pedaço de bosta

que vire arroz

que vire leite, que vire mel

                      que vire flor...

 

1995-96

 

 

DOS AUTOENGANOS

 

sinceramente

a em si mesma

sincera mente

a si mesma,

sincera, mente

 

 

tenho andado 

sem ti, mental 

. . .

 

Anotações soltas sem data, nesta seção na condição de refugiadas

 

 

 

aguarde, por favor

– me diz a jovem secretária –,

eu estou fora de sistema

         fora de

                            tema

         fora de sis-

         fora de sis-

              fora de sis-

         fora de si

 

São Paulo 08.03.1995


Seção 10 : 
ENTRE MURALHAS E ANSEIOS DE HORIZONTES

São Paulo • Alemanha • Botucatu SP - 2001 > 1987
mesma época da Seção 11, com ângulo diferente


 


QUANDO EU SOMOS UM

 

Eu

estava lá na beira do rio.

Eu mostrei a aquele menino as pedras

e as formas redondas dos troncos

e as tendas

e os homens e mulheres ativos na beira do rio.

Eu mostrei a beleza do mundo

e o tempo passando nas águas do rio,

mostrei o que foi

e o que pode vir a ser.

Eu lhe mostrei a escolha,

o poder de também remar

e participar no rumo,

sem deixar

de respeitar a correnteza.

 

E Eu disse: podemos ser Um,

como Eu e Tudo somos Um,

e isso

para que Todos sejam Um,

como Eu e Você e a Grande Mãe-e-Pai já somos Um.

Você poderá Brincar de Não Ser Um sempre que quiser,

pode ser um entre muitos,

pode ser muitos em um...

Mas é só sendo Um que você pode ser Tudo,

e Eu convido você a ser Um.

 

Eu disse,

e fiquei olhando

o corpo do menino crescer rapidamente,

firmar-se, envelhecer,

junto ao tempo e às águas que passam

e à cachoeira e às minhas palavras, que persistem,

como nesse velho o rio, e as pedras, e as tendas,

e as palavras, e o menino

ainda existem

  

e sempre que Queremos

somos Um.

 


A Helena Kolody (II)

28.08.2001

Diferente da Seção 11, onde "o menino" é um jovem a que o poeta se dirige, "o menino" aqui se refere ao próprio poeta no decorrer da sua vida, enquanto o sujeito lírico (Eu, com maiúscula) é o que, real ou suposto, se costuma chamar de "eu superior".

(Quanto a "a aquele" no verso 3... é óbvio que o autor conhece a crase. Apenas teve sua razões para não querer usar!)


 

que eu pudesse,

em certos dias ao menos

ver mais uma vez a vida fluir

– as nuvens passarem,

o sol brilhar, ou não,

a lua crescer e minguar,

o mar descer e subir

como se não dependesse de mim...

 

como se não dependesse de mim

ter ainda um colchão e um cobertor

depois de ver a lua,

ter uma xícara de café cheiroso

quando o dia vem,

repor a corda do violão

quando arrebentar,

cobrir o custo de me deslocar com meu amigo

até a beira do mar.

 

ah, por que fomos inventar um mundo todo nosso,

com gostos nossos

que só nós podemos manter?

pudessem me bastar um dia

o pão das árvores

o calor do sol

a música dos bambus,

pudesse rolar e dormir na grama

sem medo nem dor,

pudesse uma vez que fosse abrir os lábios

com a certeza da doçura do teu seio

ó grande, ó sagrada, ó infinita  --- ó grande e eterna

Mãe.

 

mas teu colo, Mãe,

onde ficou?

quem te disse, Mãe,

que eu cresci,

que crescemos

e não precisamos mais, oh Mãe,

do teu peito, teu calor, das tuas mãos

- que não precisamos mais

de Ti

para Viver?

 


São Paulo
abril 2001


 

águas passadas não param de mover

os moinhos da memória

- de onde as correias e engrenagens

não param de mandar

empuxos e contra-empuxos

às molas do nosso agir

 


Set. 1996


 

minha cor de lama...

Gil Marçal, 1996

 

tua cor de lama

igual à do primeiro homem

feito do pó da terra

e do cuspe

e do sopro e da luz

do rosto de Deus

 


1996


 

ah eu quero ir pra lá,

pra terra de grandes paisagens,

grandes ideias

flores misteriosas

amores enxutos

e imensos

como um jatobá.

 


20.09.1996


 

ENTRE PORTOS E CORRENTEZAS

 

I

coisas bonitas, coisas queridas,

cadê?

o rio está correndo

e o quadro que eu via na margem

parece ficar pequeno, ameaça

esconder seus detalhes aos olhos

– e eu,

e eu que por três anos

me refugiei neste porto

estremeço –

pois o mundo é grande

e excitante

mas também depois é igual,

         igual

e cansativo

e nada excita tanto quanto as pequenas belezas

de um mesmo porto,

ainda mais se esse foi

por primeira vez

um porto

feliz.

 

II

roda, roda que giras!

tudo está aí, todos

estão.   por que

é que tudo parece distante,

irreal?

por que essa impressão de que

a qualquer momento

todos meus companheiros terão saltado do barco

– sem brigas, seduzidos apenas

por um cheiro de terra nova,

         e eu,  e eu

preso ao barco por sê-lo eu mesmo,

num instante a corrente terá me levado

– talvez com outros marinheiros ou náufragos

saltando pra dentro

os quais, cedo ou tarde,

terei que ter prazer (ou dor) em conhecer, mas...

mas não! que amados como estes não houve

em nenhum percurso nem porto

e se eu quero marinheiros no barco,

ah!, que fossem, meu Deus!,

os deste porto

feliz.

 


24.08.1996


 

SALMO EM SAMPAULILÔNIA

 

 SUPER FLUMINA BABYLONIS

(Salmo 136/137, trecho)

 

Inclinados sobre os rios de Babilônia

nos assentávamos e chorávamos

lembrando de nossa terra.

Nos salgueiros que ali existem

pendurávamos nossas harpas.

Os que nos levaram escravos

nos pediam canções!

Os que nos raptaram

pediam de nós alegria, dizendo:

Cantem! Cantem-nos

            algum canto lá de Sião!

Mas como poderíamos cantar

            um canto do nosso Deus

em uma terra estrangeira?

 

(de um poeta hebreu exilado na cidade de 
Babilônia por volta de 600 anos antes de Cristo)

 

junto às margens do Pinheiros

onde não se encontra assento

eu caminho de olhos secos:

até a memória nos roubas,

senhora das torres quadradas,

daqueles por quem

nos cabe chorar.

nos jardins que suspendeste

por entre muralhas de espelhos

ando em busca dos salgueiros

– mas já não se anda com harpas,

e onde era mesmo a minha terra

cujas canções não cantar?

futuros, alhures, outroras

em ti não são mais que unicórnios,

pégasos, sereias mudas:

nada existe, em ti, senão tu,

momento infinito,

sem glória, porém,

pois presente és só tu – e nós,

nós cascas de grilos

sugados de aranha,

em tuas teias que vibram

dia e noi-

te,  igual.

quisera

(quisera!...)

cantar, como um dia

– em qual

das tuas en-

carnações? –

cantar com um timbre tão forte

que perfurasse teus muros

e acendesse em algum de teus filhos

a lembrança

de duvidar de ti.

libera,

libera minha alma,

ó senhora das torres de vidro,

pra que eu possa de novo

sonhar algum reino de luz

 


Centro Empresarial de São Paulo (Jardim São Luiz)
 1995–96

Versão portuguesa do trecho de salmo hebreu: RR, com base em várias traduções


ATIVO & ATENTO - forma I

 

 

                at ivo

              & at ento

                at ento

              & at ivo

                      

     ágil como o v ento

 vibrando de tão v ivo

                     

                at ivo

              & at ento

                at ento

              & at ivo

 

 

 


1994

A Wagner Oliveira, 'aluno nº 1' em São Paulo & amigo


ATIVO & ATENTO - forma II

 

                          at

                            ivo

                        & at

                               ento

                          at

                               ento

                        & at

                            ivo

               ágil como o   v

                               ento

           vibrando de tão   v

                            ivo

                          at

                            ivo

  s                     & at

    s                          ento

      s                   at

        s                      ento

          s             & at

            s               ivo

              s            

                s          

                  s        

                    s      

                      s    

                        s  

                          s i m

 

 


1994


 

TRANSVERSUM MYSTERIUM

lentissimo con svolgimento

 

buzina.

ronco.

ronco e buzina.

cinco metros,

cinco minutos.

mais cinco metros,

seis.

suor.

ventilador sopra quente,

pó nos meus olhos,

só.

buzina.

buzina e ronco.

fumaça

e pó.

 

preso. há quanto tempo

espero chegar essa esquina?

não que seja saída! saída pro olhar, talvez.

ou marco:

desta passei. quantas mais?

 

esquina.

aí vem,  

a esquina.

aí vem...

chegou.

cruzo o leito de outra rua. mais uma.

e quantas mais?

cruzo o leito. cruzo...    

empaco.

meio da rua,

empaco.

uma rua a mais,

uma

a mais.

mais.

 

      mas...

 

que rua é essa, afinal, que eu não me lembro?

não,

não é uma a mais.

tem cheiro de chão, cor de terra

- aqui, onde só por cima de asfalto anda o pó!

e tem barrancos

verdes, capim quicuio,

e subindo o barranco, cêrcas,

daquelas que não cercam nada,

uns arames soltos, pretos,

decorando mourões carcomidos,

belos de velhice -

uma cêrca não cêrca,

só detalhe-tradição de paisagem,

uma cêrca que convida a entrar

e só.

 

e não só:

e bananeiras. e moitas

de cana em flor.

e buritis! e butiás,

daqueles

que só lá onde um dia eu menino,

só lá pareciam existir.

butiás

guavirovas

jarivás.

nessa rua,

da avenida de cada dia,

tranversal que (como?)

eu nunca vi!

não, agora não, barco ligeiro! tu que esperaste

encalhado o dia inteiro - deixai

que eu beba essa livre selvagem poesia, deixai!...

...que me atinja esse pólen no vento,

esse lírio do brejo,

essa flor de mamão!

 

 

vem!, me diz a brisa. vem!,

e vou.

e vou, alado, janela afora, e barranco acima, vou!

é aqui! é aqui, finalmente!

é aqui. passado o barranco

lá estará, num declive suave,

o colo da Terra, dizendo

chegaste, enfim! aqui

não fazíamos outra coisa, além

de esperar por ti.

vem!

 

no capim fofo e seguro

trilhas sem conta conduzem

aonde se quer;

uma bordeja uma casa

tão leve e florida

que nem fere o morro.

dentro e em volta

avós de todos os tempos conversam,  

servem-se de licor com sequilhos,

ou tomam chimarrão

junto à chapa de ferro

onde estalam e cheiram pinhões.

comentam das coisas da vida

de todos os tempos da terra

sem nunca enjoar.

quando nos vêem, se alegram:

bom ver você!

abraçam, beijam,

não pedem relatório nenhum.

oferecem, quem sabe,

um pedaço de goiabada,

ou doce de pera em caixa:

venha quando quiser!

e só acenam, despreocupados

quando a porta de trás  

nos ordena passear no pomar.

(o pomar não tem fim, eles sabem, mas

tanto faz).

 

no pomar a areia quente

intensa nos beija os pés -

e nos afaga, ofegante,

assim que soltamos

nosso corpo no chão.

e brincamos.

brincamos de carrinho e castelos

e cidades

como deviam ser, pequenininhas,

brincamos

no chão.

aí estou,

e estão meus filhos.

brincamos juntos,   

enquanto no ar

perfumes de lima e limão

brincam de pegador.

 

então vem

a mãe dos meus filhos,

e chama

a mim e ao meu companheiro,

oferece bebida agridoce  

e nos deita em seu colo, um de lá, um de cá.

suas mãos

unem as nossas cabeças

pesquisando a raiz dos cabelos,

e diz

como é bom e agradável

viverem unidos os irmãos!

meu amigo lhe beija a fronte, me beija os olhos,

e segue:

é como óleo precioso, é como o orvalho dos montes, e aqui

ordena o Amor sua bênção

e a vida

para sempre.

 

nossos filhos nos tomam as mãos, e nos levam

por entre ovelhas que ninguém mata

(são só flores brancas no pasto)

pelo caminho de casa.

amigos aguardam tocando

instrumentos de todo tipo

em volta de uma mesa simples

e farta.

berimbau, agogô,

tamborim, e então

um coro de muitas vozes

que exclama

fiat pax in virtute tua

et abundantia in turribus tuis,  

que haja paz nos teus domínios

e abundância nas tuas torres.

minha boca se abre, e responde

por meus irmãos e amigos

pronunciarei a paz deste lugar!

e o coro, de volta

sendo a morada do Amor nosso Deus

eu buscarei o seu bem.     Gló-

                                        ri-

                                        a!

 

mas...

que trompete foi esse 

que ousou desafinar?

que trompete foi esse logo atrás de mim?

mas que trompete ou...

buzina?

 

buzina.

buzina

fumaça

e ronco.

o trânsito andou diante de mim. dez metros.

e eu, como ousei ficar!?

anda, filho da puta!

buzina.

e a rua...

rua não há, nem nada. meus filhos, eis que ouço

ronco.

buzina.

e pó.

 


Em recuperação de imagens um dia compartilhadas com o primo Marcelo Brunetti - in memoriam

Dedicado também a Helena Kolody, com quem foi compartilhado

Idealizado em 1993
Escrito em 28.07.1994

Anteriormente denominado Lento, e ainda Lentissimo con svolgimento 

As  referências aqui incluem a canção Transversal do Tempo (letra de Aldir Blanc) e diversos salmos. Apesar de altamente considerado por autor, este  poema foi mantido fora de circulação devido a uma dificuldade de ajuste entre sua concepção de vida e os termos de algumas das citações bíblicas, até que recentemente encontrou-se uma solução justificável em termos da prórpia Bíblia, mais precisamene por 1 João 4:16 


  

é perigoso, meu pai,

tudo é perigoso!

tudo neste mundo é perigoso.

    a curva e a reta

    o arco e a seta

    e principalmente

o gozo.

 

é perigoso, meu pai,

tudo é perigoso!

tudo neste mundo é perigoso!

    o pão, o leite

    o leito, a alta

    mas principalmente

a falta.

 


São Paulo 1993

Saindo do Centro Cultural Monte Azul e entrando na Ponte Transamérica pela Marginal Pinheiros


 

To see a World in a Grain of Sand

And a Heaven in a Wild Flower

Hold Infinity in the palm of your hand

And Eternity in an hour.

William Blake

a infância é o exílio das decisões

sobre a matéria,

a impotência diante das coisas da Terra -

e é só em espírito que, crianças,

viajamos por sóis e planetas

criamos e descriamos reinos

por mero querer.

 

crescendo, trocamos a mobilidade do espírito

pelo mundo da Terra.

que permanece imóvel.

eu quero ‑ mas como chegar lá?

se chego: como me manter?

a idade adulta é o exílio

de todas as decisões.

 

 

( - mas não! - disse o velho -

podemos ainda!

podemos sim escolher nova infância

     e vermos

o mundo que se oferece

no grão de areia

que encontramos no chão da prisão! )

 


Curitiba jan. 1993
SP jun. 1993

 


 

CURITIBA, 60 E POUCO
Rua Augusto Stellfeld 868
Ligeira inversão térmica

 

manhã maravilhosa! traz no ar a concentração exata

de fumaça de diesel

pra me trazer de volta

os cascos sobre o granito

  (orvalhado):

                     - ver...durê-rô!

                       ver...durê-rô!

o ônibus Bigorrilho roncando rua acima

- com sua terrível borboleta,

liquidificador de gente -

novela no radinho encapado em couro preto

- transístor! os mistérios do mundo civilizado! -

armário no corredor cheirando a Canela Urso

panela de pressão  - fi-ji! fi-ji! fi-ji! -

que um dia estourou e grudou brócoli no teto

e a Vó Zica pra lá e pra cá, pra lá e pra cá,

  miúda, ágil, eterna.

 

cuidado, ambientalistas! não limpem demais o ar!

não acabem com esta doce poluição

da minha memória!

 


1993


 

a hora em que eu for chamado,

não, não me detenhais.

não tenteis amarrar-me ao corpo

chamando a isso "salvar."

 

     terei tido meu lote

     de erros e acertos

     e co'a beleza do mundo

     não deixei de me espantar

 

não, não luteis com o anjo, quando talvez

de verdade nem me queirais.

a hora em que eu for chamado

deixai-me seguir,

deixai-me

 


São Paulo
 março-abril 1992

 


 

ao monte méru!

 

as pedras,

as pedras de lá

onde a primeira chispa

tocou o chão

 

ao pé

ao pé da montanha

voltar

 

entregar a semidecomposta carne

dos milênios vagando nas chuvas

fugindo aos olhos do pai

 

perdoareis? é convosco.

já nem há mais sangue

a derramar.

 

voltar, simplesmente,

ao teu colo, mãe,

a teu pedregoso colo

e ao calor daquele olhar

adormecer.

 

à vossa mercê.

tudo entregue.

à vossa total mercê.

 


21.03.1992


 

vós filhos e netos da áfrica

 

estátuas, que pelas ruas

a cada instante confronto -

 

vossa beleza me queima.

me esfola os olhos e a alma.

 

queimasse (ah!) de minha pele

a branca herança dos crimes

 

e digno me tornasse

de um dia ser abraçado

 

por vossa doçura de bronze

por vossa dureza de mel!

 


São Paulo 13-20.01.1992 Última revisão em 2016

 


 

e eis que se havendo cumprido os dias

os olhos se nos abriram

e vimos

naquele que nossos pés

há muito tempo pisavam

a tonitroante beleza

do Filho do Homem.

e em ousando

nossos olhos passar pelos seus

não vimos neles

ódio nenhum.

sim,

neles não vimos

- ó castigo cruel! -

ódio nenhum.

 


15.01. 1992  

 


 

                                      back to sampa

 

   me recebe em tua cidade

          amigo mário,

    em tua cidade de versos

       brotados de pedras suadas

                    e do espírito

                          soprando

                        insistente

              por entre o pó

                      

 


28.11.1991
logo após mudança Botucatu-São Paulo,;

Trata-se aqui de Mário de Andrade, considerado especialmente como poeta, contista e ativista cultural de São Paulo, bem como o literato brasileiro de que o autor se sente mais próximo.


 

Depois vocês vêm e dizem:

 

- não fomos nós que não ouvimos,

não fomos nós que o metemos no fogo,

                              na cruz, na fome.

eles, aquele tempo, eram brutos.

nós, você vê, estamos aqui

    com flores e velas e hinos

         diante do nome dEle.

 

e agora

pare de dar palpite

de achar que enxerga mais que os outros

                              o errado e o certo;

o que tinha de ser dito Ele já disse

e cale a boca

que ainda temos madeira

 


Witten-an-der-Ruhr, Alemanha, 17.06.1991


 

(NO CEMITÉRIO DOS RICKLI)

 

passou

a grama do jardim que plantamos

e as casas que construímos

já deram lugar a outras.

nossas obras, nesta terra,

pouco mais que o corpo duram

e até os nomes

o vento logo carrega.

não veremos o fim dessas árvores

mas elas também cairão,

e os rios, cedo ou tarde

não estarão onde os conhecemos

e a própria terra, enfim,

será refundida

no coração de deus.

 

mas a palavra

que habitou em nós,

essa não morre.

a palavra

que ergueu a terra em troncos, folhas,

lhe deu asas coloridas pelos matos

e cores perfumadas, saborosas

e que fez correr os rios

e as nuvens nos contemplarem...

 

a palavra estava aí

desde sempre,

e em seu coração nos recebe

em seu mundo-palavra,

a brincar em seus rios,

voar com seus pássaros,

desfrutar de suas árvores

e flores,

todos feitos em sua substância eterna -

como nós, meu pai,

pequenas letras

enviadas a brincar

no pó deste mundo.

 

! bendita seja a palavra

que já no fundo do pó

nos concede maravilha e beleza -

e bendita seja no eterno

onde, enfim, de verdade

ser-

emos

 

!

 


Turvo PR
10.07.1989


 

de repente o silêncio se torna agudo.

deixa de ser o amplo macio que apóia a alma

     em seu cantar interno.

penetra a alma e a extrai

a vácuo.

traz a atenção para o que não há;

pra todos os que não estão.

 

o excessivo no silêncio

é a excessiva presença de si.

violino sem arco

caixa sem fósforo

chuva

caindo eternamente na ausência de chão

 


Botucatu SP 21.03.1987


ENTREATO BRINCANTE 10-9
São Paulo • Alemanha • Botucatu SP - 1993 > 1987


 



 

IDEICIDA

 

teve uma ideia

ou uma ideia teve você?

não corra o risco,

use o ideicida:

basta apertar

o botão da tevê.

 

 

com licença (poética)

 

estou apenas perguntando nada.

por razão nenhuma.

ou por todas as razões.

pela razão bastante

de ser.

ou não ser.

(eis!)

 

SP 02.10.1993
com Samuel Fonseca

1993

 

 

tenho andado meio pra baixo

de puro medo de cair

 

 

lado sul

 

nos campos do tietê

às vezes ainda me sinto

um marginal pinheiro

 

Abr. 1992

Mar. 1992

 

 

quando é que me dás o prazer

  de aparecer?

quando é que me dás o gosto

  de ver teu rosto?

e quando me dás a alegria

  (mas eu não presto!)

    de qualquer dia

      te ver o resto?

 

 

de doce

não é muito que eu preciso:

pro resto da vida

um par de jabuticabas

 

1992

29.11.1991

 

  

mandei meu currículo ao mundo:

   explicador de tudo

   (sem similar no mercado)

   ao seu dispor

 

estranho que o mundo não ligue de volta:

“era VOCÊ

quem eu esperava tanto!”

 

só pode ser que o mundo é muito desorganizado

e perdeu meu telefone.

 

 

às vezes

até saio da cama atraído

pela ideia de agir.

 

na porta me aguarda um jornal:

 - inútil. tudo é inútil.

         (e nem tente ser útil

que o desprezo será maior).

 

1992

 

 

EINE KLEINE 
PETITE-BOURGEOISE MUSIK

 

allegro

ritenuto.

grave

leggero.

vivace

moderato.

tutto tutto

ma non troppo...

 

b a s t A A A A A ! ! !

 

 

em guardanapo alemão

 

wie lange bis zur Reife

wie schnell bis zum Verkommen

 

 

São Paulo fev. 1992
O título é uma paródia da famosa peça de Mozart, Eine kleine Nachtmusik ('uma pequena música noturna'), substituindo-se o 'noturna' por 'pequeno bruguesa',o que é  um tom bastante específico dentro da chamda classe média... 

Witten, Alemanha, no Alte Post.
Para
o amigo Christoph
24.03.1991

Uma tradução possível seri:

pra amadurecer,
quanta demora.
para apodrecer, é na hora

 

PAROLE

 

estou farto de café e de palavras.

quero passear na beira de um rio

mas tenho que ganhar a vida.

        parole,  parole,  parole!

olhos curtos e uma bunda quadrada.

 

 

não existe "primeiro"

nem "depois"

- ter de digerir o trigo

pra depois provar arroz.

entre gregos e troianos

quero os dois!

 

Botucatu 1989? 90?

Witten 15.06.1991

 

 

se tens em tuas mãos algum anjo pequeno

e nele encontras umas penas

de pavão ou de colibri,

de passarinho exibicionista -

perdoa-lhe, ah

perdoa-lhe os detalhes.

pior seria se encontrasses

  - e é bem mais fácil -

de gavião

ou de urubu

 

 

disse,

por dizer,

como  todos,

"de amarga chega a vida."

e ele

"pois pra mim

a vida parece doooce,

  dooooce..."

e eu,

para  mim,

espantado,

"como  é

que ele consegue?,

oh  inveja!"

vivia

a custa dos outros

- que simples! -

e eu

como é

que não via?

 

Botucatu 1990; 
pro amigo Zé Otaviano Oliveira.

1988?

 


  

 

DRAMA ADOLESCENTE

eu queria tanto ser tudo mas mamãe não deixa


Botucatu 18.01.1989, para o amigo Leandro Mello.

Não chega a ser ironia: sabemos que esse drama é real!


Seção 9 : POEZOO - ou ESPELHO ANIMAL
Botucatu SP • viagens • Curitiba • Guarapuava PR - 1991 > 1982

 

como podes ser meu amigo, rapaz,

se nem te espantas c'o mistério 

da existência dos animais?

 


Epígrafe:
anos 80


 

POEZOO: EPÍLOGO ANTEPOSTO

 

   Nos dias em que havia uma abelha morta sobre a pia, levantou-se Miau, o Gato, do sítio que ocupava nas bandas do ocidente e passou a fustigar os Gafanhotos que desde a última lua haviam penetrado na região da Casa do Pão, assim chamada porque há muito se deixara um pedaço de pão sobre a mesa.

   Ora, quando o corpo da abelha já começava a perder suas feições levantou-se Zé, filho de Mané, por ordem do senhor, e a removeu da pia que desde há tempos ocupava, e deu início a um novo tempo. Este, porém, não foi respeitado por Miau, o Gato, pois que os Gafanhotos igualmente ignoravam as ordens do senhor e continuavam a viver segundo a concupiscência de suas verdes carnes.

   Então se enfureceu o senhor sobremaneira e ordenou que a Casa do Pão fosse derribada. Diante disso terminou Zé de rasgar suas vestes, prostrou-se ao chão e, rastejando entre os vermes, implorou ao senhor que abrandasse o seu coração. E eis que o senhor enviou uma aranha, a qual desenrolou sua teia sobre a porta do banheiro, e o senhor disse: enquanto durar a teia ora estendida por sobre a porta do banheiro, se estenderá um Novo Tempo de Caça aos Gafanhotos, e não mais punirei quem lhes der caça, pois eis que Eu declarei este tempo o Segundo Tempo de Caça aos Gafanhotos, e minha palavra será vossa lei.

   E, enquanto durou a teia, Miau, o Gato, caçou, e toda sua tribo, e juntos caçaram e se refestelaram, e já os Gafanhotos escasseavam quando o senhor enviou o Sabiá, que deu início a um outro tempo, de cujos fatos darei conta porém no Livro Quinto.

 


Botucatu 28.10.1991

De mudança para São Paulo

 


 

uma vida inteira presa à terra.

mais que ninguém, lidando dia a dia com seus grãos.

de repente, essas asas:

mais que ninguém, leves, aéreas, de sonho!

ah, o delírio do primeiro vôo!

pernilongos e pardais

mal disfarçam o riso.

já ouviram falar de chamas?

de bicos de pássaros? de gotas brilhantes

que aderem para sempre as lindas asas

num vaso sanitário?

 


24.10.1987


 

quando passo pelas estradas

vou cumprimentando os cachorros.

gatos também, às vezes.

cavalos não, nem vacas.

respeito-os, sim, admiro-os,

mas somos de outro clã.

quando lhes dirijo a palavra mal disfarçam

o muxoxo e a ironia.

 


Out. 1987


 

eu ainda mal miava quando me arrancaram de minha mãe

e meus irmãos.

estava com eles em pleno jogo, nem deixaram

terminar, nem uma lambida

ou afago de despedida.

nem um olhar.

 

me levaram pra um lugar a ser joguete de bichos grandes,

nenhum como eu. quando quero dormir me bolem,

me torcem, carregam, com carinho até,

mas pouco jeito.

e assim como vêm se cansam e vão,

e não lhes importa a hora que estou triste,

quero carinho ou me vem - ainda -

vontade de saltar, brincar, gozar.

senhores do tempo me jogam

- vai caçar no mato! - pra esse mato seco

onde nem caça se acha,

nem companheiros, que são, enfim,

a graça de todo esporte.

 

bicho chato, por que mia assim o tempo todo?,

ainda perguntam,

como se não soubessem o que dói viver

sem quem lhe seja companhia, igual ou parecido,

e ainda ter que represar no coração a pena toda

sem

um

mio

 


Botucatu, 1987

Com imenso remorso por ter arrogantemente sacrificado um tão doce bichinho à minha inexperiência de então


 

ó grande Inominável, se te importas

co'as dores de teus insetos,

se teu amor nos banha a cada um

como a grãos na praia e não na rocha -

                        então alegra-nos

por tantos dias

quantos nos afligiste,

              põe

nos nossos lábios um canto

que não seja de dor.

 

a alegria, natanael, a alegria,

não necessariamente o prazer!

alegria como de inseto que dança em Sua luz

sem medida o momento/movimento,

sem medo o perder-se, dissolver-se

pra se ganhar, refeito

                                - árvore

que penetra terra e céus

porque seu grão morreu.

 


Campinas 16.05.1987

Pro mano José Octaviano Oliveira (1958-1991), à sombra e luz de Hilda Hilst, Gide, Salmos e Alan Watts

 


 

uma formiga trôpega e silenciosa

no meu lençol esta manhã

tentava não me acordar.

   inútil, formiga amiga!

já estava desperto há tempo

pelo estrondo de uma ausência

 


Curitiba 1986


 

não me olhe assim como se fosse um bicho

nem como se o bicho fosse eu.

sei que se ficar o bicho come, mas...

pra que correr,

                      se o bicho já comeu?

 


Curitiba 1986

 


 

um pássaro cantou de madrugada. que poeta

disse isso antes de mim?

 

que importa! é outra madrugada!

e o pássaro não pergunta

se outro já cantou assim

 


Curitiba 17-18.09.1985


 

SEU REVERENDO

 

É, eu sei, seu Reverendo,

que os passarinhos não fumam

nem bebem, mas voam de puro vôo,

                         se embriagam

                               de luz          

É, eu sei, e acho lindo.

Mas eu não sou, seu Reverendo,

     um passarinho.

Quem fala quando eu falo

é justamente a gaiola.

 

Nasci em terra de gaiolas,

gaiolas foram meus pais, gaiolas

amigos.

Tudo me ensinou a ser gaiola.

Mas pressinto em mim um passarinho

 e se eu o soltar

   quem sabe eu consiga me mudar pro seu corpo,

      deixar pra traz a vida de gaiola...

 

Se eu fosse passarinho, Reverendo,

eu não fumava

nem bebia

nem nada assim.

Se às vezes me amorteço

isso é amortecer a gaiola

pra que ela, descuidada,

deixe voar o pássaro.

 

Nego, eu sei, minha herança de gaiola - onde se viu?

        Gaiola libertando passarinho, onde se viu?

Quem sabe seja subversiva entre as gaiolas,

por crer menos no projeto-gaiola

que no projeto-passarinho.

Se é isso, eu sei, minha escolha é suicida.

 

Não. Suicida não. É apressada.

Apenas adianta um fim inevitável.

O futuro, eu sei, é dos passarinhos;

das gaiolas se perderá memória.

 

Quando eu for, seu Reverendo, um passarinho!

 


22.11.1984
Guarapuava?


 

o que pouca gente sabe é que ferdinando

- o touro que amava as flores e detestava brigar -

ruminando ramalhetes conquistava

qualquer vaca ou qualquer boi das redondezas

- e que os touros mais valentes fugiam

temerosos de sua má companhia.

 

foi aliás no tempo de ferdinando

que os bovinos ganharam chifres

 


Guarapuava 1984

Publicado em Lime a Leme Nenhum


 

COMO OVELHAS SEMPRE AMAMOS

 

como ovelhas sempre amamos

perdidos nas nossas lãs

de lanolina enxarcados...

 

suspeita o carneiro

através de tanto pelego

o corpinho nu que se esconde

                                            atrás?

e descobrirá mais além

nessa caixa de ossos

uma alminha vivendo vidinha

num mundinho interior

                                       qualquer?

e como, se descoberta,

essa alminha vivendo vidinha

em seu mundo lá

viverá?                

                                          (verá?)

loura ou morena?

nua ou vestida?

diferente ou igual

a esta aqui

                                            será?

 


1984, no longo inverno de Guarapuava...

Pra Consuela 

 


 

chamem o veterinário

 

Berro pelo aterro, pelo desterro

(...) Sou o seu bezerro gritando mamãe...

Caetano Veloso

 

meu amor empedrou-se no peito

como em vaca esquecida na ordenha.

não pretendo seguir como ovelha

pra abismo ou pra matadouro.

na madrugada uivo teus nomes

- só me respondem cachorros

nascidos debaixo do assoalho.

me deixasses apenas

ejacular em teus ombros

o sal de meus olhos

 


15.07.1984

Publicado em Lime a Leme Nenhum


 

te quero um trompete

soando sobre o mundo.

 

levar-te às costas é honra

se apenas me ouvires

histórias do antigo amo

                  quixote.

 

uns se acompanham de cordas,

outros, de tambores e flautas.

também os amo - mas espero

som de trompete sereno e forte

que faça um cavalo voar

 


05-10.07.1984

A imagem das cordas, tambores e flautas é inspirada nos salmos.

Publicado em Lime a Leme Nenhum

 


 

no verão os bichos saem das tocas

se aventuram pelo mundo

e se apaixonam.

no inverno dormirão - e sua vida

pode depender apenas

do calor de sua companhia.

apaixonar-se é fácil. difícil

é atravessar o outono sem que a paixão

                       caia

                                        co'as folhas

 


16.03.1984

Publicado em Lime a Leme Nenhum

 


 

espelho animal

 

com que delicadeza a vaca

   levantou sua pata

      e num leve gesto

         desferiu seu tremendo coice!

                                                     oh

                                  vaca, vaca,

                                espelho meu!

 


09.02.1984


 

olhando as estrelas escuto sonetos

e olhando as pedras, sonatas.

solenes aberturas nos pinheiros

e alegres xotes nas abobras em flor.

ao olhar dos cães, emoções,

à carícia dos gatos, canções,

ao passar dos carneiros, das vacas,

                    me-

              di-

         ta-

ções.

 

mas quando toco num instante

por apenas um instante

com minha testa a testa de quem amo - aí eu ouço

sinfonias.

num instante,

inteiras,

sinfonias.

 


1984

Aviso ao chatos porventura de pasasgem: ABOBRA é forma dicionarizada! (Vide Houaiss)


 

nÊnia ao inÚtil quati no asfalto

 

choro-te, inútil quati no asfalto.

que vieste, de teu verde mundo,

fazer no negro deserto?

tivesses a prudência dos cães

ou a malícia dos gatos

- inda assim te espreitava o perigo.

                                                      a ti,

quati,

quando iria poupar

o entusiasmo cego das máquinas?

                  choro,

quati,

tua morte inútil

cercada

de morte

onde nenhum verme ousaria chegar

                                     comungar

puxar teu corpo

de volta

pra dança,

quati.

                tris-

           te

    qua-

ti

que não

fecundará sua terra,

eu choro

tua morte

ao quadrado

 


Los Teques, Venezuela, 30.12.1983

Publicado em Lime a Leme Nenhum

 


 

ahí están los peces

haciendo sus diligencias:

arriba, abajo, abajo, arriba, no paran

jamás.

 

¿que habrá tanto que hacer

en ese pequeño acuario?

mira. para. vuelve. ¿qué hay? ¿qué pasó?

 

margulla un pececito en la fuente de burbujas

que lo lanzan agua arriba hasta el aire,

y de ahí sale nadando, renovado

                   ¡cuánta emoción!

 

qué pequeño es el acuario, pero

jamás se ha oído hablar de algún pez

que se haya dejado ahogar

   en el tedio.

 


Los Teques, Venezuela, Dez. 1983

 


 

é, pingo, meu cão,

eu sei como é.

eu sei como é quando me olhas

     e pedes mais    mais     mais  .  .  .

     mas nem sabes  

do quê.

 

é, pingo, assim é a vida,

entenderás quanto te entendo?

ainda não classificaram nosso instinto

de apenas querer estar bem,

e não sós,

que não é nenhuma sede material,

ou fome, ou ímpeto de reprodução.

não, nada disso. sabes

que nada mais podes ganhar

que já não tenhas tido

e ainda assim me olhas, pedes

                       - fica comigo!

 

ê, cão, cão, no quê é

que somos diferentes?

estar juntos, apenas! nem buscamos

o que excita, mas o que acalme. não mais

que dormir nuns braços, e um pouco menos

medo da vida,

e pressentir o fim

deste longo isolamento

na prisão dos corpos/caixas

que impedem que conhecer-se

seja fusão das almas

 

ê, pingo, mas não desistes! pingo,

    a vida é triste, nela

    não acharás

o que procuras,

perfeito demais. paciência,

pingo, aceita

pelo que queres

leitinho quente 

e umas bolachas

e dá-te por satisfeito

que te afago a cabeça

e concedo o, para um cão, privilégio raro

de ouvires "boa noite."

aceita, pingo, aceita, e te satisfaças:

não é o que tu anseias, porém

mais não te será dado

- inútil uivares.

 

pingo, pingo,

eh, cão - seremos todos cães?

 


Guarapuava 14.09.1982

 


 

seis anos

 

sentado

na  pedra

o sol

na cabeça

  cóó, cóc cóc cóc cóc cóc cóc cóóó ...

o  tempo

parado

 


Guarapuava 01.05.1982

Descrição de uma memória real

 


 

 

 

                                 ser feliz ...                       ser feliiiiz ...

                                                 - dizia o gato -

                           a senhora já pensou em ser feliz?

 

   

 (POEZOO : EPÍGRAFE POSPOSTA)

 


Extraído de Assim falava Zé (Guarapuava 1982), constante da Seção 6


ENTREATO 9-8: HAIKOIDES & OUTRAS MIUDEZAS
Curitiba - início de 1987 > 1985


 



 

ler rapidamente o jornal

de ontem

antes que seja amanhã

 

 

ser vencedor, pra quê?

se já contemplei até

a sombra dos grãos de pó!

I: 1987?

II : Guarapuava, 1986: subindo a pé a Serra do Jordão por estrada de terra, ao pôr do sol, com o amigo Juan Bonetti, enquanto o mundo assistia a um jogo da Copa

 

 

entardece.

lua e vênus no céu.

teu corpo sorri.

 

 

"o sexo é de fato lindo"

dizia o monge, sereno,

observando o jardim

 

 

 

finalmente verão!

igual que às uvas

te beijo.

 

 

balão

 

quantas gerações de corpos

espremidos em óleo a milênios

pra sustentar tua sereninade

um momento

no céu?

 

 

um bule de café

florido

numa casa do interior

florida

 

 

floriscidade.

 

 

ser

ser

ser

como um rio

como um rio

ser

ser

ser

 

 

 

você conhece a Rose Feijão?

não?!

a mulher do Povo Brasileiro!

 

 

(BATENDO PALMAS)

 

a língua portuguesa

já entrou na menopausa:

não tem mais regras!

não tem mais regras!

 

 

 

 

perigo extremo

 

sábado vamo lá em casa ficar de cara?

curtir uma

de lucidez rara?

 

 

sonhava que a vida fosse cheia de flores

- de girassóis, de rosas, de lírios!

 

.

 

 

ALGUÉM ME JURA QUE FOI O LEMINSKI 
QUE DISSE.
EU JURO QUE NÃO TENHO 
A MENOR LEMBRANÇA DE TER VISTO.

 

I

 

se sou poeta? vide versos.

 

 

ALGUÉM ME JURA QUE FOI O LEMINSKI 
QUE DISSE.
EU JURO QUE NÃO TENHO 
A MENOR LEMBRANÇA DE TER VISTO.

 

II

 

a via das dúvidas tem duplo sentido.

 

 

hei, menina, pare!,

que eu quero te conhecer:

me rouba

me arrouba

me empresta

uma vontade de viver

 

 

AO SABOR DAS DANÇAS

 

hei, você aí, vai um chá?

um cha cha cha?

ou preferes uma salsa caliente

em cima do frango?

   (afinal:

   ou rango

   ou tango!)

 

 

 

BANCANDO PAI & MÃE

 

minha pequena horda de bárbaros

faz lá no quarto suas barbaridades

 

eu, todo sala

insisto em sonhar temas clássicos

                 - e até conto sílabas!

 

desiste, enéas, vai-te embora, narciso.

dentro de instantes invadem:

                               comida!  comida!

 

 

e se a glória do paraíso não passar

de apoteose de escola de samba?

 

imagino dante entrando no céu:

aqui, um coro de arcanjos;

ali, uma ala de baianas

    -  os paetês faíscam!

 

e se o kitsch for, afinal,

o estado final do universo?

 

Curitiba 1986

II: véspera de Natal de 86

Não se entenda como crítrica ao samba em si, que amo e considero poderosíssimo; a ironia se dirige ao estilo visual predominante nos desfiles e à euforia artificial, obrigatória, "pra inglês ver"

 

 

capital

  sociedade anônima.

 

no interior o coração

& companhia

 

 

anoitece sobre curitiba.

luzes pipilam

      cintilam

      pistilam

pra nunca mais.

(que quer dizer isso?

    lá importa!

quero entender

jamais).

 

Dourados MS, 04.10.1986

Curitiba 30.04.1985

 

 

a solteirona e a viúva 
                evitam pensar em homens.

quando lembram de prostitutas

disparam:

- infelizes!

em seguida

suspiram.

 

 

de ver navios

a ver novelas

   - ó porto igual!

 

 

I : Curitiba. 1985?

II : Elaborado mentalmente na noite de 4 ou 5 dezembro de 1985, entre um posto de gasolina no Triângulo Mineiro e outro em Mato Gosso, numa kombi no rumo da Venezuela

 

 

corre hoje, corre hoje, moço

sorte grande

corre hoje, moço,

amanhã talvez sem pernas

 

 

anti-zen

 

"eu queria tanto!"

   inútil. que tem

a ordem do mundo com isso?

 

e no entanto

que força há de mover

   esta perna dormente?

 

Rio 13.02.1985

Curitiba 07.08.1985

 

 

homenagem

 

nenhuma cultura:

inteligência

pura.

  

 

queria agora alguma coisa apaixonada

como um beijo em tua boca desdentada

 

Curitiba 24.04.1985
A M.J.M.

Abr. 1985

 

 

qual das realidades é a real?  qual

dentre as imagens

                           a original?

e sobretudo:

entre todos

                 - qual de mins sou eu?

 

Jul.-ago. 1985

 

CONTRAPONTO
(a Helena Kolody)

 

No círculo esotérico

dos novíssimos

múmia não tem vez.

(H.K., em Poesia Mínima)

 

no círculo esotérico

dos (velhos ou novos) (como um rio) profundos

novíssimas múmias 

não tenham vez

 

1986

Enviado por carta à poeta, que disse ter se divertido muitíssimo


Seção 8 : INTERLÚDIO CURITIBANO
Início de 1987 > 1985
 


 


 

   no meu travesseiro

depois de uma viagem

procuro estalagem

encontro teu cheiro.

   meu coração salta

de encontro a teu peito

- ó encontro perfeito

do pleno co'a falta!

   pressinto tuas partes,

tua pele, teus pelos,

alegro-me em vê-los,

senti-los, tocar-te...

   mas vai-se ligeiro

o estúpido engano:

num corpo de pano,

da alma - nem cheiro!

 


Curitiba 17.02.1987


 

nuvens se amontanham

flutuam embranquecidas

pela lua velhíssima

que indiferente aos mosquitos

e naves que piscam vermelhos

continua subindo, e subindo as seivas

do cio.

 

       lua que subindo me viste

       lua, descendo me vês

 

e as naves? e o amor? e a paixão?

e a música das máquinas

um dia esperança em marcha

hoje zumbido ameaça?

o país tem nó nas tripas

outro aperta na garganta.

o mundo parece cansado

da demora em virar cinzas

(tão seguro que é fênix...)

 

       lua que subindo me viste

       lua, descendo me vês

 

sobe a velhíssima lua

e minhas paixões, deslumbradas,

decolam, por entre as montanhas do céu.

contornam, voam, revoam,

retornam e sobrevoam,

buscam onde se atirar.

 

       lua que subindo me viste

       lua, descendo me vês

 

olho o chão: nenhuma pista.

 


14.01.1987


 

NOITE 

 

vem

e faze-me esquecer que este mundo

é canseira e enfado

que a lavação de pratos não termina

pelas horas ao redor da terra

que em toda tarde há pernas esgotadas

de tentar trazer do chão o trigo sempre novo

que exige sem cessar este quem sabe dispensável corpo...

 

vem

e faze que este corpo

de exigência e dores

este corpo de peso e de limites

este corpo prisão e prisioneiro

- que este corpo

               pague

    sua existência

devolvendo-me em prazer o que me cobra em alimento

   rompendo

   as amarras do cansaço

      borbulhando

      as fontes da alegria

      -  jorrando-me esta alma

                 livre nos espaços

                                             - vem!

                      e faz-me crer

                   por um instante

                                          que vale

 


19.01.1987


 

PRIMEIRA LIÇÃO DE TEORIA MUSICAL

 

fala de mim - te dou espaço.

há tempo pra saber o que passaste.

fala de mim, quero saber

o quanto nesse tempo em mim pensaste.

fa-

    la

       de

           mim.

 

falaste!

acabou-se a escuridão. com essas linhas

trouxeste a luz de volta. com essas linhas

o frio de até há instantes se dispersa. co'essas linhas

           meu

                  sol

                       se

                            re-

                                 faz!

 


17.01.1987

Obrigado ao meu pai, Otto Rickli, que inventou a brincadeira mnemônica: notas dos espaços:
fa la do mi
 notas das linhas:
mi sol si re fa


 

revisitando narciso

 

Cansado de mirar-se em água, fria,

apaixonado e entanto assim sozinho

Narciso olha aos céus por um instante

e lança aos deuses seu pedido ardente:

 

Que dessem eles forma, a sua imagem,

humana, que na Terra caminhasse,

ouvisse, visse, e mesmo acariciasse,

lhe fosse enfim caliente companhia.

 

Ó deuses tão cruéis e tão bondosos!

Que irônica resposta a tal pedido!

Concedem a Narciso o ser amado

 

e trata de abraçá-lo e não consegue:

suas mãos apenas mãos e dedos tocam,

seu gesto, apenas gesto igual responde:

 

                          descobre a solidão acompanhada.

 


28.12.1986

No modelo de um soneto italiano, porém sem rima


 

A YUKIO MISHIMA

 

eu tinha treze anos e não soube de nada.

também, que nos deixavam saber

os pátrios generais, ciosos

de bons costumes?

inútil, tua dor irmã

já conhecia.

de dentro.

 

não seria uma flecha tupi

que faria a este chão aceitável

uma carne luso-helvética.

tua espada busquei no arado,

na enxada o suor que me liberte

das palavras.

meu povo não tem alma a resgatar. tem de pari-la.

e sangue é flor. suor é que é semente.

 

mas julgar-te não ouso.

sangue ou suor

                     no chão

sejam Sol

vencendo

o dragão!

que os deuses, irmão,

não te ouçam

– e te ousem

                    ofertar

c  o  m  p a i x ã o

 

 


19.10.1986


 

O QUE A MENTE FAZ QUANDO QUER POETAR SEM TER SOBRE O QUÊ?

 

no fim de tarde passado

encontrei pelo caminho

um licor, um alpiste, uma empada

um tomate e quatro pepinos.

 

nas barcas dos cataventos

certa coisa anoitecia

e voltava sempre por cima

das coisas que um dia eu vi.

 

que coisas eram, senhores

(de novo que vos pregunto?)

sei lá, sabeis, sabereis,

nem quem sois sabeis ou sei!

apenas atiro certo

no embalo em que me embarquei

mas não pergunteis por quê

- por quê, ora! por queis.

 


Abril ou maio de 1986. Na terceira estrofe é "pregunto" mesmo, forma antiga comum e ainda ativa por aí!


 

adeus ao piano

 

Senhor Rei, olha esta mão,

olha esta mão de menino:

acreditas, Senhor Rei,

que ela não seja capaz

de tocar,

e bem tocar, e tocar bem

as oitavas afinadas

de um corpo?

   (Rilke / Leopoldo Scherner)

 

das oitavas das cordas

          de cobre e aço

 às oitavas dos corpos

         de carne e osso

 

                   -  perdi?

 


Abril-maio 1986

Nessa época havia retomado meus estudos formais de música depois de 9 anos, e havia iniciado também um estágio em afinação em uma fábrica de pianos, lidando diretamente com "as cordas de cobre e aço". No entanto acabei deixando de lado tanto o estágio quanto esses estudos, e dando continuidade a um relacionamento iniciado na fábrica.


 

ave         materia

mater